Hoje escrevo este texto em meio a recordações de caixas de papelão entulhadas de sapatos, roupas, livros, panelas, jogos de videogame, CDs e DVDs aos milhares, que não me recordo nunca de escutar, somente transportar, bugigangas de todos os tipos e todo o etc que vamos juntando vida afora. É fantástico o volume de coisas que acumulamos. Não menos fantástica é a dificuldade de se desfazer delas. Um conjunto de panelas, que não cabe mais na caixa, um jogo de lençol amarelado de tantos anos, mas da tia querida que costurou à mão incluindo os inesquecíveis fuxicos…
Também recordo vários tipos de mudanças, as interestaduais seguindo o caminhão na estrada com o cachorro no porta malas, as locais com parentes ajudando, as internacionais com a mochila nas costas, tudo o que couber nas malas despachadas e claro o container do Bill, nosso inseparável Golden Retriever / Sharpei, que já tem mais milhas voadas que muita gente que conheço. Fica sempre a pergunta, da próxima mudança, vamos ter caminhão, carregadores, móveis ou será do tipo Vapt-vupt lá vamos nós e as malas para uma nova casa. De fato cada mudança serve como uma nova fase de renovação e auto conhecimento.
Só por curiosidade listo algumas ruas em que já morei – elas são de São Paulo, Washington DC, Silver Spring, Bethesda, Curitiba, Orlando, Windermere, Montreal, Vancouver, Moncton. Aí vão: Rua Dr Olavo Egidio, Collings Avenue, Dr Jose de Queiroz Aranha, Solange Silva, Taquara Branca, Fernandes Sampaio, Foynes Avenue, Voluntários da Pátria, Hornby St, Mountain Rd, Evergreen Drive, por ai vai…É CEP para chuchu!
Espalhadas por essas ruas, fases de vida. Boas, ruins. Promissoras, decepcionantes. Apaixonadas, indiferentes. Vi meus filhos crescerem, sem entender muito bem o motivo de tantas mudanças, mas entendendo e se adaptando a cada novidade, a cada nova língua, amigos culturas diferentes, caminhos distantes (far far away). Quantas vezes escutamos, que loucura, mudar outra vez, e as coisas que você já acumulou? Exatamente, coisas, a experiência só absorvemos vivendo, tentando e especialmente procurando.
É claro que há diferenças agudas entre quinze anos e quarenta e nove, Ups quase cinquenta! Uma delas é que o mundo não espera muito mais de mim, mas deliciosamente não espero muito dele também. Não tenho mais tempo para vir a ser, posso portanto me dedicar a ser o que sou. Isso não significa estar mumificada, envolta em éter. Tudo ao contrário, ser o que sou é mergulhar no profundo da vida que quero para mim. E mudar sempre que for necessário, aprender outra língua, procurar uma casa nova, sempre que o horizonte do outro lado oferecer maiores benefícios do que vislumbramos estagnados no hoje. Fui.




















